"O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar" - Carlos Drummond de Andrade
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Circo

No fim da noite
Ele ali,
Mas não no mesmo lugar,
Entre amigos
Ambiente desproporcional
À sua tristeza.
Tentava enganar.
Um palhaço
Com lágrimas nos olhos.
Talvez porque foi enganado.
Uma palhaça
Com um sorriso nos lábios.
Sua vida era um circo,
Tinha um leão
Chamado paixão,
Uma trapezista que não se cansa
Chamada esperança,
Um canhão sem mira
Chamado ira,
Tinha um palhaço sem maldade
Chamado felicidade.
Até aparecer uma domadora
Que soltou o leão.
O leão matou o palhaço
E a trapezista fugiu.
Ainda insatisfeita
A domadora acendeu o canhão
E quando estourou
Ele jogou-se na rodovia.
Nesse momento
Ele foi segurado.
Sentiu a mão de Deus
Puxando sua camisa
E impedindo sua morte.
A alma do palhaço
Às vezes se manifesta,
Mas a trapezista nunca mais voltou.

Uma rosa vermelha pro meu amor


A noite é mais fria nos bancos da praça. O Professor lê, com dificuldades, as notícias de seu cobertor. Piveti, Boleba e Rudim ouvem atentamente o Professor. Aquelas manchetes são para eles uma história de ninar.

_ Enchente deixa cento e cinqüenta famílias desabrigadas; morre mais uma pessoa vítima do tráfico; acidente paralisa o centro da cidade. – Nas manchetes mais trágicas, Professor usa um tom de voz sombrio, mas os ouvintes não se impressionam, e adormecem embalados pelas notícias do ano passado.

O Professor faz pose de vidente e começa:
_ Horóscopo! – Os outros três levantam-se rapidamente – Hoje será um ótimo dia para o amor e para fazer novas amizades. Seja simpático e cordial.
Boleba deita-se novamente. Ele esperava que o Professor dissesse que tudo aquilo iria acabar. Que quando acordassem a vida teria dado uma reviravolta.

Por influência de Boleba, Rudim deitou-se também. Piveti não acompanhou os dois colegas, parecia não acreditar. Então, pediu que o Professor repetisse:
_ Hoje será um ótimo dia para o amor e para fazer novas amizades.Piveti tinha feito uma nova amizade naquele dia. Conheceu Dona Judite, que lhe deu o almoço. Piveti também conheceu o cupido, que lhe deu uma flechada certeira.
“Qual o nome dela? Como ela é?”- Perguntavam os outros. O Professor rolava de tanto rir. Piveti nem percebera a zombaria, seus olhos brilhavam, seu pensamento viajava. Não parava de pensar em Amanda, filha de Dona Judite, a criatura mais bela que Piveti já vira.

Piveti andava nas nuvens. Esqueceu da galera, dos roubos, da cola de sapateiro. Começou a olhar o mundo com outros olhos. Observava as pessoas que atravessavam a praça e sentia os medos e preocupações de cada uma.
Descobriu como o jardim da praça era lindo. Foi num canteiro da praça e colheu a rosa mais viva. Com muita pressa, Piveti dirigiu-se para a casa de Amanda. Parou no portão, avistou, através das grades, a janela aberta e não viu ninguém. Não teve coragem de chamar, então, sentou no meio-fio esperando que Amanda aparecesse.

Passaram-se horas, e o cinza foi tomando conta do céu. Quem trafegava naquela rua admirava-se com a imagem de um menino maltrapilho acariciando uma rosa.O céu desabou em águas e raios. Piveti, imóvel com a rosa na mão, desmanchava-se em lágrimas. Lágrimas que perdiam-se na imensidão das águas da chuva.
A rosa, aos poucos, perdia as pétalas. A cada pétala que caía, Piveti se martirizava apertando o caule e ferindo a mão.
Ao cair a última pétala, Piveti deixou escapar o caule, que se foi rua abaixo com a enxurrada. Neste momento Amanda chegou da janela e, com movimentos delicados, Piveti levantou a mão, vermelha de sangue, no formato de uma rosa.